Crônica: Velocidade da Luz

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Em um momento de alívio do cotidiano, observando as circunstâncias e algumas coincidências, percebi que estamos vivendo no automático da vida. São tantas as exigências pessoais e profissionais que evitamos o tempo parado, pois dá uma sensação de inutilidade não fazer nada. E parece que estamos voltando à época da Revolução Industrial, quando a jornada trabalhista era de 16 horas/dia, ou mais. Mas não estamos só trabalhando. Estamos ocupados, frenéticos, nervosos, agitados. Agenda lotada, sem ócio.

Assistindo à televisão, em jantares, no banheiro, em viagens, esperando o médico ou o ônibus, o celular é uma companhia certeira para se envolver em outras ações. A geração multitasking (multitarefa) não consegue fazer somente uma atividade de cada vez. E tudo se tornou “para ontem” em uma velocidade que nem o relógio parece estar funcionando no ritmo normal. Tenho a sensação de que o dia realmente tem 30 horas como pregava a antiga propaganda do Unibanco.

Certo dia, indo da minha casa para a terapia, numa viagem de 40 minutos por causa do trânsito, utilizando um carro de aplicativo, resolvi várias questões da agenda com a ajuda do WhatsApp. Telefonei para a minha mãe, acertei o cardápio de um almoço, arrumei carona para uma festa no fim de semana, passei notas para os alunos, convidei uma professora para uma palestra, curti algumas fotos no Instagram, despachei pautas jornalísticas definindo a escala dos repórteres, transferi dinheiro para credores e paguei duas contas por meio do banco virtual. Tudo isso, às 8 horas da manhã.

O motorista me perguntou exclamando: “você é agitado, né! Como consegue fazer esse tanto de coisa de uma vez!?” Em silêncio, respirei. Pensei no que falar, pois eu já estava cansado antes mesmo do dia começar oficialmente. “Sou como o seu carro, vou no piloto automático, acelerando, freando, esperando os sinais verdes e vermelhos”. Foi assim que compreendi que a minha aceleração era acima da velocidade permitida.

Enquanto reconhecia os meus processos, tomei um susto. Uma buzina chata surgiu atrás do carro em que me encontrava. O semáforo abrira para os veículos. Havia uns cinco na nossa frente. E o motorista estressado já exigia passagem. Indignado, pensei alto: “vê se consegue voar por cima dos outros carros”. Quando ocorre uma história assim, recordo-me do Inspetor Bugiganga, um policial transformado em robô que tinha o poder de aumentar as pernas para transitar no caos das ruas das grandes cidades.

Será que está tão difícil aguardar? Trabalhamos fora do horário de trabalho. Almoçamos resolvendo pendências que podem esperar. Andamos atrasados e mentimos para aqueles que nos esperam. Forçamos os partos em cesarianas desnecessárias. Dormimos mal, fora das horas recomendadas. Aceleramos o cozimento em micro-ondas. Adiantamos datas para conciliar as agendas. Buzinamos no sinal amarelo. Fiquemos em alerta.