Testes da vacina contra o coronavírus começam a ser aplicados na UFMG

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Primeiros voluntários serão profissionais da saúde que estão na linha de frente do combate à Covid-19

Começa nesta sexta-feira (31), a terceira fase de testes da CoronaVac, vacina candidata contra o coronavírus, da biofarmacêutica Sinovac Biotech. A pesquisa, foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é coordenada em todo o Brasil pelo Instituto Butantan, de São Paulo.

 A participação é somente médicos, enfermeiros e paramédicos e que também precisam atuar diretamente no cuidado de pacientes infectados pelo vírus, além de atender a todos os critérios de elegibilidade, como:

  • ter mais de 18 anos
  • não ter sido contaminado pelo novo coronavírus
  • não participar de outros experimentos
  • ausência de gravidez
  • não ter intenção de engravidar nos próximos meses
  • não apresentar doenças crônicas
  • não fazer uso de medicamentos contínuos
  • ter registro ativo no conselho profissional de seu ofício.

Cerca de 852 voluntários já estão confirmados.

O Brasil foi escolhido devido ao grande número de pessoas infectadas. A opção pelos profissionais de saúde mais expostos ao vírus é mais uma estratégia de pesquisa, com a perspectiva de tentar agilizar o processo necessário para aprovar o uso da vacina com a máxima segurança possível. A UFMG e os demais centros, por sua vez, foram escolhidos dada a sua ampla experiência na pesquisa de ponta para o desenvolvimento de fármacos e com base em experiências anteriores bem-sucedidas. O laboratório chinês Sinovac Biotech disponibilizou 20 mil doses para todo o Brasil. Na UFMG já foram entregues cerca de 850 doses. Em todo o Brasil, serão selecionados 9 mil voluntários, de diversas regiões do país.

Voluntários: não “vacinados”

Segundo Mauro Teixeira, coordenador do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Fármacos do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG e responsável pelos testes, os voluntários não estarão sendo, de fato, “vacinados”. “Ainda não existe nenhuma vacina contra o coronavírus, apenas candidatas”, reitera. Após receberem as doses, os voluntários serão acompanhados durante um período que pode ultrapassar um ano.

“Há um conjunto de estudos prévios que sugerem que a ‘vacina chinesa’ é segura e eficaz, mas o voluntário é apenas um ‘doador’ que se propõe a participar, sem a certeza de que a viabilidade do medicamento será comprovada”, explica. Ele reconhece a abnegação dos profissionais de saúde nesse momento, mas destaca que aqueles que aceitarem se voluntariar serão participantes de um projeto de pesquisa que quer justamente avaliar se essa candidata a vacina é de fato eficiente.

Além disso, será preciso que essa pessoa se disponha a ser acompanhada durante um tempo prolongado. “A avaliação ao longo do estudo é a parte mais importante do estudo desse candidato vacinal”, para a devida avaliação dos seus efeitos e de sua adequação para ser adotada como vacina ou não. O cientista reforça que todos os testes realizados mostram que a substância é segura para ser usada por seres humanos e que as entidades de saúde e de pesquisa brasileiras autorizaram a realização dos testes.

Ele explica também que será um estudo randomizado, quando os participantes são aleatoriamente distribuídos em dois ou mais grupos, e duplo-cego, ou seja, nem o voluntário nem o examinador sabem qual substância está sendo aplicada. Um grupo receberá a candidata a vacina, mas outro grupo receberá uma substância inerte, o placebo. “Isso é necessário para podermos comparar os dois grupos no futuro e avaliar os resultados. O esperado é que o grupo que recebeu a substância ativa esteja imune, mas isso é o que a pesquisa precisa nos dizer”, afirma Mauro Martins, do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB). Se houver benefícios, todos os participantes da pesquisa serão devidamente vacinados ao final do estudo.

Além de atuar no Centro de Desenvolvimento de Fármacos do ICB, Mauro Teixeira também coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Dengue (INCT em Dengue). “A infraestrutura da UFMG no campo das pesquisas em dengue e outros estudos possibilitou que estivéssemos hoje preparados, de certa forma, para os ensaios clínicos no contexto da covid-19”, afirmou.