Startup mineira oferece tecnologia para melhorar performance na mineração e diminuir riscos de barragens

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Mariana_MG, 30 de Marco de 2016 SAMARCO - Obras de recuperacao Na foto, o Centro de Monitoramento da Samarco, localizado no escritorio da empresa em Germano. Daqui sao monitorados em tempo real as barragens e diques da empresa Foto: Leo Drumond / NITRO

As duas últimas tragédias que desolaram o Brasil, deixando centenas de
mortes e quilômetros de devastação ambiental, a partir de Brumadinho e
Mariana, levantaram um grande questionamento: é possível diminuir os riscos
das barragens e garantir a segurança de todos de forma eficiente e
economicamente viável?

A MiningMath, startup de Belo Horizonte, garante que sim. A empresa criou um
software, o SimSched, que, por meio da união de técnicas modernas de
programação e da ciência de dados, permite a combinação de quaisquer
variáveis de um projeto de mineração para geração de análises, hipóteses e
possíveis resultados. O objetivo é contribuir para melhorar os processos de
tomada de decisão nas mineradoras, de modo a considerar de forma efetiva
aspectos econômicos, sociais e ambientais do negócio.

A lógica do sistema é colaborativa, ou seja, cada área ou profissional insere
dados relativos à sua competência e a tecnologia propõe uma série de cenários
possíveis diante dos principais desafios mapeados. O resultado é um processo
mais seguro e que agrega qualidade e agilidade às decisões, já que a
totalidade dos parâmetros, condicionantes e variáveis de todas as áreas são
cruzados e as consequências, mensuradas.

Desenvolvido desde 2013, por Alexandre Marinho, formado em matemática
computacional pela UFMG, e por Fabrício Ceolin, cientista da computação
também pela UFMG, o SimSched permite, dentre outras funcionalidades, a
visualização mais eficiente de riscos, incluindo impactos ao meio ambiente e à
comunidade, a otimização de investimentos e a melhoria de processos.

Mineração responsável

No Brasil, a mineração corresponde a 36% do saldo da balança comercial
brasileira, gerando mais de 2 milhões de empregos diretos e indiretos, com
uma produção de aproximadamente 2 bilhões de toneladas de minério por ano.
Só em 2018, o setor movimentou US$ 34 bilhões*. Os números demonstram a
importância desse mercado para a economia do país, mas também acendem
um alerta sobre a necessidade de construir uma produção mais sustentável.

“Queremos contribuir para uma mineração mais responsável, sustentável e
segura no nosso país. Por isso, vamos oferecer a nossa tecnologia a preço de
custo para as mineradoras de Minas Gerais. Queremos fazer a nossa parte
para que tragédias como as de Mariana e Brumadinho não voltem a
acontecer”, afirma Alexandre.

A tecnologia tem sido aplicada em grandes projetos de empresas
internacionais do mercado da mineração, como a BHPBilliton, Codelco e
Antofogasta Minerals, no Chile, e Glencore, no Peru.

Mas como a tecnologia pode trazer mais segurança para as barragens?

No modelo atualmente adotado, as decisões são tomadas pelas áreas da
empresa de forma isolada ou em conversas com um gestor que centraliza as
informações. Cada decisão é fixa e cada área avalia possibilidades sem
considerar todas as variáveis das outras áreas, algo humanamente impossível.
Cada execução desse trabalho pode demorar meses para ser finalizado, algo
longe dos princípios tecnológicos modernos de ciência de dados e otimização
global. “Vários aspectos mudam, informações são atualizadas e oportunidades
surgem ao longo dos projetos e das atividades minerárias, e seria impraticável
que as mineradoras refizessem todo o planejamento para entender os impactos
dessas novidades. Como consequência, têm uma dimensão parcial dos riscos
e impactos de suas operações”, explica Alexandre.

Com a tecnologia proposta, as empresas podem combinar aspectos
geológicos, dados econômicos, restrições legais, ambientais, sociais e muitos
outros a qualquer momento, sem precisar dispor de semanas ou meses de

pesquisas e estudos condicionados a erros humanos. A tecnologia consegue
rever todo o processo de forma rápida, possibilitando a avaliação de riscos a
cada novo cenário. Assim, seria possível avaliar várias possibilidades de
disposição de rejeitos, como retorná-lo para a área da mina, cenários com
redução ou eliminação do uso de água ou a possibilidade de se restringir o
volume de rejeito descartado em barragens, permitindo minimizar os riscos
ambientais e humanos.

Para Alexandre, a tecnologia ainda poderia facilitar o envolvimento do Estado.
“Atualmente o governo precisa confiar nos relatórios apresentados pelas
mineradoras, sem que possibilidades de menor risco sejam estudadas e seus
indicadores quantificados. Com o sistema instalado em todas as mineradoras,
o Estado poderia solicitar a execução de novos cenários, comparar resultados,
acompanhar as ações e organizar prerrogativas para propor formas de
minimização de impactos”, argumenta.

* Os dados são do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM).

Tecnologia premiada
O SimSched conquistou, em outubro do ano passado, o primeiro lugar no
Concurso de Desafios Técnicos e Soluções de Mineração MineTech 2018,
realizado em Moscou, durante o 14º Fórum de Exploração e Mineração da
Rússia (MINEX RUSSIA 2018).
Recentemente, a startup também teve um artigo científico publicado –
Environmental optimisation of mine scheduling through life cycle assessment
integration (Otimização ambiental da sequência de lavra por meio da
avaliação integrada do ciclo de vida) – pela revista Resources, Conservation
and Recycling, da conceituada editora Elsevier.