Operação Pica-pau

1239
Criança assistindo à TV. Foto: Pixabay/ Divulgação.

Meu filho mais velho, quando tinha cinco, seis anos, entrou na mudança de fase “desenhística”. Você, que tem filho, sabe muito bem que esse é um momento de extrema e intensa alegria no coração dos pais. Essa é aquela hora em que o menino abandona por completo um desenho que parecia ser parte da alma dele.

No meu caso, meu filho estava deixando a famigerada Galinha Pintadinha e suas músicas que nem o mais severo Alzheimer consegue vencer. E esse abandono tinha uma causa, um novo amor: o Pica-pau.

Particularmente, gostei muito da troca. Nada contra a Galinha Pintadinha, a questão é que as músicas dela tocavam tanto na minha humilde residência que, em meus sonhos, a trilha de fundo era sempre algum hit galináceo. Antes que pergunte: “Sim, meus sonhos têm trilhas e música de fundo”. O sonho é meu e eu sempre gostei desse jeito.

Voltando ao meu filho, a troca pelo Pica-pau me agradou por me livrar das músicas da galinha e também porque eu e quase todos os homens da minha geração crescemos assistindo esse desenho.

Entretanto, depois de algum tempo do reino do Pica-pau em meu lar, minha mulher, como boa mãe que é, me questionou: “Estou preocupada com nosso filho. Acho que o Pica-pau não é uma boa influência para ele. Você já viu o que aquele bicho faz? Eu quero que você converse com nosso filho e que ele pare de ver esse desenho, tudo bem?”.

Sem poder ir contra o argumento dela, afinal, como bom conhecedor do Pica-pau, sei o quanto ele é desonesto, aproveitador, como humilha seus amigos e inimigos, como curte uma violência, como parece não ter escrúpulos e como faz de tudo para se dar bem, enfim sei como o desenho é divertido.

Sempre foram esses atributos, que não queremos na nossa vida, que me prenderam ao Pica-pau. Se ele fosse calmo, bonzinho e tranquilo nunca teria visto mais de um episódio. O fato de ele poder fazer o que quer, não ter limites e quase sempre sair ganhando é que era interessante. Pensando nisso, cheguei ao ápice do meu dilema: sucumbir-me à hipocrisia e proibir meu filho de ver o que eu via quando tinha a sua idade ou não atender ao pedido da minha esposa. O que fazer?

Pensando no meu bem-estar físico, mental e espiritual, parti para a tarefa de tirar o Pica-pau dele. Eu que não iria desafiar minha esposa. Até porque, de certa maneira, ela estava certa. No primeiro domingo que tive a oportunidade, sentei com ele enquanto assistia a maldita ave influenciadora do mal. Ele adorou a ideia, afinal, desde o domínio total da Galinha Pintadinha, tinha um bom tempo que não via desenho com ele. Tudo tem limite na vida. Eu já tinha de escutar tanto aquilo, ninguém iria me obrigar a assistir também.

Pica-pau é um personagem conhecido por ser maldoso e trapaceiro com os amigos. Foto: Reprodução/ Internet.

Logo que sentei, em poucos minutos, deixei de ser um pai de família com três filhos e voltei à minha infância. Rimos muito das maldades do Pica-pau, criamos novos planos para suas artimanhas e, depois de exatos nove episódios ininterruptos, paramos.

Minha mulher olhava da cozinha, sem entender nada. Era nítida a vontade de me esganar. Eu quase podia ouvir seus pensamentos: “Peço para ele tirar o desenho e ele passa quase uma hora assistindo com o menino. Deveria ter me casado com o Douglas”.

Entretanto, minha mulher não contava com a minha astúcia. Logo que paramos de ver o desenho, perguntei para o meu filho: “Muito legal o Pica-pau, não é filho? Mas, deixa eu perguntar uma coisa: “Na vida real, na escolinha, lá na pracinha que a gente vai, você queria ter um amigo igual o Pica-pau?”. Ele parou por um bom tempo pensando, coisa rara para uma criança de seis anos, e disse: “Não, papai, ter um amigo de verdade igual ao Pica-Pau seria muito ruim. Ele só é legal na televisão”.

Pronto, naquele momento, constatei que não precisava ser hipócrita e já tinha um ótimo argumento para desafiar minha esposa. Afinal, ele sabia a diferença entre a tela da TV e a vida real. Ele sabia que não queria um amigo assim o que, consequentemente, fazia-o entender que não poderia ser daquele jeito.

Desde então, todas as vezes que alguém diz: “Cuidado com tal jogo, tal filme, tal amigo, tal livro. Ele está influenciando seu filho negativamente”, sempre me lembro do Pica-pau e penso: “Vou sentar com ele, ficar do lado, conversar, ver o que ele pensa. Estarei com ele”.

Tudo vai influenciar meus filhos. O que eles vão fazer com essa influência, só vou perceber e poder ajudar se estiver do lado deles, convivendo, conversando. Nada é mais influenciador que a presença de quem ama você. Aprendi isso com minha mãe e estamos aqui, minha esposa e eu, tentando passar para os nossos filhos.

Thiago Carmona é publicitário, pós-graduado em gestão administrativa e tem MBA em Gestão de Pessoas. Também é palestrante e humorista.
www.thiagocarmona.com.br