Crônicas: Juliano Azevedo

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Foto: Google Imagens

Décimo quinto dia de quarentena
Tenho caminhado bastante dentro da minha casa: do quarto para o banheiro, do banheiro para a cozinha, da cozinha para a sala, da sala para o escritório. E quando desligo o computador, volto para o quarto. Durmo e acordo.

Durmo e acordo. Durmo e acordo. Durante um e outro, trabalho no tal Home Office. A vida virou um looping…
Diariamente, exceto às quartas, tenho tomado vitamina D, direto da fonte. Sento em uma área anexa à cozinha, bebo café, como biscoito de polvilho (que em Bom Despacho chamamos de Sequilho) ou bolo ou pão de forma integral. Às vezes, um suco, uns ovos mexidos.

Nesse ato rotineiro do café da manhã, é preciso fazer algumas considerações, pois para passar pela quarentena, abasteci o armário e a geladeira com o intuito de fazer todas as refeições em casa, afastando-me dos deliveries, meus companheiros de todos os dias. Comprei um pó de café muito ruim, com gosto de chá, de mato, misturados com grama. Péssimo para o meu azar que peguei o pacote de 500 gramas. Logo, tenho saudade do café da minha terra, o legítimo Café Bom Despacho. O pão de forma tem validade até maio de 2020.

Comecei a ficar com medo do excesso de conservantes que ele possa ter. Afinal, nem o Coronavírus sobrevive tanto tempo.
Moro no mesmo apartamento há 18 anos e gosto da área, pois entra ar e bate sol. Porém, lá tem máquina de lavar, varais, cesto de lixo, um aparador usado colocar plantas. Ou seja, nunca usufruí lá como um espaço para descanso.

Quase duas décadas depois, pela primeira vez, reparei nos desenhos dos azulejos. E achei bonito. E de lá comecei a olhar para as janelas dos vizinhos.
Consigo ver cinco apartamentos do prédio ao lado. Dois nunca abrem as janelas nem as persianas. Em 15 dias, percebo os movimentos, mas não escuto vozes. Na minha mente criativa, já especulei que em um deles mora um homem solitário, que viaja a trabalho e não voltou ainda. Para mim, ele é espião ou comprador de moedas virtuais e resolveu passar a quarentena numa cidade praiana. No outro, tem um casal, recém-casados. Sem móveis nem muita vontade de conhecer a vizinhança. Afinal, eles estão aproveitando a lua de mel prolongada e forçada. Será um presente?
Já no apartamento de frente à varanda mora uma família: mãe, filha com o marido e a neta. Eles gostam de novela e jantam juntos. Embaixo deles, vive um casal com uma filha. São barulhentos, pois a menina gosta de cantar as músicas de novelas infantis. Acredito que alguém de lá fez aniversário nessa semana.

Vi balões pendurados na parede. Por fim, no imóvel que fica mais afastado mora um casal que trabalha o dia inteiro, a mãe de algum dos dois e duas crianças. A avó é a babá da bebezinha que fica dando tchau pela janela. Só vi a menina maior em um domingo, solitária, na beirada da janela protegida por uma tela. Fiquei apreensivo.

Parei um tempo do meu dia para contar essa história enquanto ouço a conversa do vizinho do outro lado do meu prédio. Ele está no telefone, sentado no chão, desde 11 horas da manhã (agora são 15h52). Estou muito curioso para saber do que se trata, já que ele somente concorda com monossílabas: aham, tá, ok, entendi, tá bom, sim, não, porque, aham. De vez em quando solta um prolongado huummm.
Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
www.blogdojuliano.com.br
E-mail: juliano