Crônica: Viagem Literária

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Foto: Juliano Azevedo

Era uma vez… Uma saudade que remete a muitas lembranças dos tempos da formação primária e das aventuras que passei na Escola Estadual Chiquinha Soares, principalmente quando me perdia nas prateleiras da biblioteca.

Meu espaço predileto para “matar” aula, para onde fugia nas horas vagas e naspouquíssimas vezes em que fui colocado para fora de sala; local onde descobri e conheci um pouco do mundo, onde pude fazer viagens planetárias, onde fiz amigos imaginários e me transformei em diversos personagens.

Certamente, entre os universos literários me apaixonei pela primeira vez. E esse amor permanece em chamas intensas no peito, vívidas como as memórias da infância.

Ah! Os livros. Arrepio quando os vejo, soltando corações apaixonados pelo corpo todo. Pode ser na livraria do bairro ou na megastore do shopping. Pode ser na loucura organizada dos sebos, nas prateleiras virtuais das lojas de e-commerce, ou na casa de quem visito.

Guardo as dicas dos booktubers e salvo os e- books que recebo no WhatsApp (mesmo sabendo que nunca vou lê-los, pois prefiro os de papel).

Sinto- me a Felícia, dos Tiny Toons, pois quero abraçar, cheirar, abrir, apertar, copiar, ler a orelha, levar para a minha coleção. Se alguém me presenteia ou doa obras, arrumo um cantinho.

Em breve, não haverá espaço assim onde moro como no apartamento de uma amiga, que surgiu agora nas recordações.

Norma, portuguesa de nascimento, acolhida na França e alucinada pelo Brasil, recebeu-me em sua casa em Paris.

Em seu quarto, milhares de livros empilhados como uma muralha de castelo, ao redor do colchão no chão.

Ela quase escalava para conseguir se deitar. A cena era maravilhosa, pois eu imaginava que a ilustre leitora consumia o conhecimento durante o sono, por osmose com os autores.

Divertidamente, revelou-me que recebeu uma indenização trabalhista e comprou tudo em livro para ter companhia o resto da vida. Investimento genial.

E ainda me apresentou ao seu namorado literário, o marinheiro Corto Maltese, por quem é apaixonada. Tão apaixonada que turistou em todos os lugares por

onde o personagem, criado por Hugo Pratt, passou em suas viagens.

Já fiz e pretendo fazer várias outras viagens sugeridas pelas palavras que li por aí. Certa vez, entrei em um museu em Florença – Palazzo Vecchio – apenas para admirar uma máscara mortuária, que foi roubada em um romance policial.

Dante Alighieri me mandaria para o inferno por não dar atenção às outras obras de lá e os críticos de Dan Brown iriam estimular o fogo desse sacrilégio.

Porém, acredito que esses estímulos, sobretudo dos cenários citados nos livros, me influenciam ao turismo desde quando eu mergulhava a imaginação nas histórias das coleções Veredas e Vagalume.

Provavelmente, li todos como um leitor voraz que sou, pois entrar na biblioteca era semelhante ao enredo do filme História sem Fim, clássico dos anos 1980.

Nessa viagem, não coleciono personagens. Não me envolvo com eles sentimentalmente, até porque meu signo astrológico me tornou muito racional. Por isso, não repito a leitura de um livro.

Vibro na filosofia da abundância: de textos, de obras, de autores, de personagens, de repertórios, de estilos.

Estranham quando revelo que leio quatro livros de uma única vez. E recomendo, pois jamais se estará solitário quando na cabeceira da cama houver uma pilha de páginas para se degustar.

Já observei o andar de Capitu, assisti a uma palestra do professor Langdon, tomei café com a família Buendía, dormi na floresta com os gêmeos Yaqub e Omar, fiz selfie com Tieta em Mangue Seco, quase sofri um atentado de

Lampião… Realmente, era uma vez.