Crônica: “Por que?”

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Foto: Pixabay

” ..é impossível amar sem perdoar.”

Parada em frente à porta do quarto, uma mulher vive o maior dilema de sua existência: rever o homem que a deu a vida e que há mais de 15 anos não encontra ou simplesmente virar as costas e ir embora. Atrás daquela porta de enfermaria de hospital público, ela sabe que não irá encontrar a mesma pessoa.

Debilitado por um câncer na traqueia, provavelmente causado pelo muitos maços de cigarro que fumou na vida, seu pai definha. Sua mãe a tinha avisado que ele não tinha muitos dias. Parada em frente à porta, ela respira fundo e coloca a mão na maçaneta. Em sua mente, memórias da infância, das vezes em que iam para o interior e que, na beirada do fogão de lenha, seu pai contava casos e ria como se fosse outra pessoa.

Ali naquela casa, eram os únicos momentos que ela se lembrava de ter tido uma sombra de um pai. Com esse pensamento, ela gira a maçaneta e entra. A cena da enfermaria não difere muito do cotidiano de um hospital público qualquer. Mais leitos que o espaço necessário, acompanhantes mal acomodados e uns poucos enfermeiros que se desdobram com um milhão de tarefas. Sem pensar muito nas muitas pessoas que estavam prestes a encontrar as respostas possíveis apenas com a morte, nossa menininha caminha.

Naquele momento, ela se sentia tão frágil que, se caísse, tinha a sensação de que se partiria como um prato de uma loja de 1,99. Na terceira fileira, ela vê sua mãe e apenas os pés de seu pai. Ela para. Sente um calafrio como se estivesse de frente com o próprio demônio. Sem saber como, continua caminhando e logo consegue vê-lo completamente. Ele está magro, não consegue conversar devido à traqueostomia.

Ao vê-la, sua respiração fica ofegante, seu coração acelera. Com uma calma que não sabe de onde surgiu, ela aproxima-se de sua mãe, dá um beijo na testa dela e pede para que saia. Chorando, sua mãe despede-se do pai com um carinhoso mas distante aperto de mão e deixa a enfermeira. A filha para ao lado do pai. Os olhos do pai fogem de vergonha, ele não consegue encará-la, apenas chora copiosamente.

Ela o respeita por algum tempo até que diz com doçura, mas com bastante firmeza: “olhe para mim”! Ele a olha. Ela diz: “Eu nunca entendi o que fiz para ser sua filha. Você me marcou de uma maneira, de tal forma, que nunca eu conseguirei ser a mesma pessoa que era. Todos esses anos que passei longe de você, todos os dias, a cada hora eu agradecia por ter conseguido esse privilégio. Mas mesmo com essa alegria, me martelava essa dúvida: por que eu tinha que ser sua filha? Por quê?”

“Hoje eu sei por que sou sua filha, porque só eu poderia te dizer isso: você não é um monstro. Você agiu como um monstro, mas o senhor não é um monstro. O senhor é meu pai. E saiba que, depois que você for, quando alguém me perguntar o que foi que meu pai me ensinou, eu direi com muito orgulho: é impossível amar sem perdoar.”

Thiago Carmona é publicitário, pós-graduado em gestão administrativa e tem MBA em Gestão de Pessoas. Também é palestrante e humorista.
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