Crônica: Parabólica da Observação

1953

Olho pela janela, as nuvens escuras, uma chuva persistente, fininha. Antenas nos outros prédios sinalizam o amor à televisão. A minha está ligada para fazer apenas barulho, uma companhia na manhã de sexta-feira, dia de preguiça – um pecado capital merecido para os momentos de férias. Café tomado com o pensamento no almoço. Estômago está silencioso, assim como os vizinhos. Da sacada, fico imaginando o que se passa dentro das outras paredes. O que eles conversam? Em qual canal estão sintonizados? O que planejam para o fim de semana?

Persianas fechadas escondem os mistérios. As janelas de vidro despertam a curiosidade quando sombras se movimentam. Observo a transparência como um voyeur, desejando partilhar olhares. Ninguém aparece ou se arrisca ao contato. Ou também espiam detrás das cortinas, buscando desvendar o que eu penso por aqui? Segredos preservados pelo concreto. De repente, a chuva engrossa, o sol aparece. Diria o ditado popular: chuva e sol casamento de espanhol. E por que não me chamaram para essa festa? Agora anseio por um arco-íris. Para encontrar um tesouro… Ver um duende e o pote de ouro… A imaginação viaja na vidraça.

Na TV, um grupo toca clássicos do axé, anunciando o carnaval. Em outro momento, outra banda toca pagode. Um cantor apresenta cordéis. Os convidados do programa conversam sobre comportamentos e gostos musicais. Distraio-me com o celular e uma postagem no instagram está relacionada ao debate. Assim disse o texto: “vou tirar uma dúvida de vocês – tem como gostar de Chico Buarque e rebolar com uns funks. Também tem como ser inteligente e ver porcaria na TV, tipo BBB e novela. Tem como amar analisar os sermões do Padre Antônio Vieira e ser fã do Harry Potter. Dá para ser politizado e torcer pelo Brasil na Copa do Mundo. Sei que incomoda, mas cultura é a junção de todas as manifestações culturais. Não só o que você acha bom”.

Apesar de discordar de alguns pontos apontados pela autora – Ana Carolina Ruedas Veiga –, pensar em cultura brasileira (e na geral) mexe com as minhas emoções. Recordo-me da sanfona do meu avô e do prazer que ele tinha de dançar forró; da minha mãe apaixonada por Roberto Carlos e todos os boleros; das amigas sertanejas e das roqueiras; dos amigos que leem e veem Dan Brown e Game of Thrones e conversam sobre políticas públicas; dos que comem pastel na feira e postam fotos das viagens gourmets; dos que dançam funk e curtem MPB; de todos que enaltecem as divas do pop e assumem a paixão pelo sertanejo raiz; dos que vão da comédia ao drama, da série popular ao filme cabeça…

O que a janela esconde ou protege? Qual a cultura vivida entre quatro paredes? Dançar na chuva ou conforme a música? Acreditar na fantasia das cores do espectro da luz ou nas análises científicas da física, principalmente a quântica? Na força do pensamento, na fé, na razão? Culturalmente, a vida já é real até no mundo virtual. Nossas redes sociais já mostram que somos uma sociedade diferenciada do outro século. A chuva deu uma trégua. O calor aqueceu o quarto. Abro a janela para a entrada do ar. E assim vou vivendo, pensando, observando, no caminhar do clima, das oscilações do verão. Deu fome: partiu almoço.