Crônica – Olha que trem doido

1452
Bola de ping pong. Foto: Reprodução/ Internet.

Se você quicar uma bolinha de pingue-pongue dentro de um trem, qual a distância que ela percorre em relação a você?

Agora, considere essa mesma cena em relação a uma pessoa parada na estação, vendo o trem passar. Qual a distância que a bolinha percorre para essa pessoa?

É impressionante como um evento físico e visual de quicar uma bolinha no chão tem o poder de gerar duas interpretações igualmente verdadeiras, igualmente ligadas ao olhar de quem observa, e igualmente incompletas, pensando-se justamente na limitação do olhar de quem observa.

Agora, imagine grupos políticos se apoderando dessas visões da bolinha quicando. O grupo A, do partido PVPL (Partido Vem Para a Locomotiva), grita a todos pulmões: A bolinha não andou nada. Ela apenas quicou e voltou para a mesma posição. Sabe por que a bolinha não andou nada? Por causa da visão rasteira de grupos, grupos comprados… grupos comprados pela mídia da raquete, que só sabe bater e machucar as bolinhas. Não aceitaremos isso mais! As bolinhas não serão mais ameaçadas. PVPL é a solução!

Por outro lado, o partido PEPE (Partido Esperando Passar na Estação) começa um discurso contrário, dizendo que o PVPL usa um discurso de vítima, um discurso que só enfraquece a luta pelos direitos das bolinhas. Segundo esse grupo, as bolinhas avançaram muito em pouquíssimo tempo e só nega isso quem tem o interesse de usar as bolinhas como massa de manobra. E isso o PEPE não vai deixar. Pelo direito das bolinhas, PEPE!

Os dois grupos têm consciência da complexidade da questão, só que eles também sabem que precisam se eleger, e complexidade não dá votos. Assim, de maneira mau caráter, eles alimentam a dualidade. Afinal, melhor eu ter um grupo fiel, com argumentos rasos, do que problematizar a questão e perder eleitores. Produzem notícias falsas, manipulam notícias verdadeiras e fazem de tudo para criar o caos. Afinal, o caos radicaliza, e radicalizar impede o pensamento. Assim, PEPE e PVPL fingem serem opositores, enquanto, com suas atitudes, trabalham juntos para se manterem no poder.

E as bolinhas? As bolinhas continuam quicando de um lado para o outro, tomando raquetadas.

Thiago Carmona é publicitário, pós-graduado em gestão administrativa e tem MBA em Gestão de Pessoas. Também é palestrante e humorista.
www.thiagocarmona.com.br