Crônica: O câncer X o humorista

2017
Quimioterapia. Foto: Divulgação/ Internet.

2019. Ação beneficente em um hospital público especializado em tratamento do câncer. Fui convidado por um grande amigo para fazer um stand up para os funcionários do hospital. Como sou filho de uma técnica de enfermagem, esse é um pedido muito difícil de ser negado. Sei como é trabalhar na área da saúde pública por conta de minha mãe. E se com o meu trabalho posso dar um pouquinho de respiro a eles, não tenho como negar.

Chegando no hospital, percebi que, diferente do que faço costumeiramente, esse não era um evento que envolvia apenas os funcionários. Na realidade, envolvia todos que estavam no hospital, funcionários e pacientes. E, apenas para salientar, esse é um hospital especializado em pacientes com Câncer.

As apresentações estavam sendo realizadas na recepção. Quando entrei, uma cantora alegrava a todos com seu repertório variado. Ao olhar para os pacientes, meu coração esfriou. Na minha cabeça um único pensamento: como é que vou contar piadas para pessoas que estão com câncer, aguardando atendimento? Imediatamente, fiz aquilo que é muito difícil de assumir, mas que foi muito fácil de fazer: chamei meu amigo e disse:

– Não vou fazer o show!

Sim, como falávamos na minha adolescência, eu afinei, acovardei-me. Tinha medo de falar alguma bobagem, tinha medo de, ao invés de alegrar, criar um clima de constrangimento. Na minha cabeça de humorista, por mais ilógico que isso possa ser, ali não era um lugar de contar piadas. Meu amigo, vendo a seriedade e o desespero no meu olhar, disse:

– Venha aqui, vamos conversar com a diretora do hospital.

Entramos na sala dela: uma mulher de meia idade com um olhar gentil e forte. Depois de ser apresentado, disse com as mesmas palavras de antes, que não faria o show para os pacientes. Ela, olhou profundamente para mim e falou com muito carinho, mas com uma autoridade assustadora:

Vai fazer sim. Você saiu de casa, veio disposto a fazer rir. O que pode acontecer de errado?

Eu respondi:

– Mas eu faço esses shows para os funcionários, não para os pacientes.

Ela:

– Qual a diferença?

– Ah… você sabe… eles estão com câncer.

– E daí?

– Eu posso falar alguma coisa que os ofenda, sei lá, não acho que seja o lugar.

– Tudo bem Thiago, eu não posso obrigá-lo a nada. Mas faço-lhe um desafio. Vou escrever uma frase aqui. Se você fizer o show, garanto que depois que terminar, essa frase será o que você estará sentindo. Você pode ir embora achando que não é o lugar e ficar com a dúvida ou pode conhecer os meus poderes de prever o futuro.

Sinceramente, não sei o que aconteceu naquele momento, mas ela conseguiu fazer com que a minha curiosidade sobrepujasse meu medo. Topei o desafio dela. Fiz o show. Quando acabou, ela me entregou o bilhete e saiu correndo para resolver um problema no hospital.

No papel estava escrito: “Pessoas doentes não estão mortas e o riso ajuda a mente a ver isso com mais clareza”. Nem tive muito tempo de refletir na frase, pois o Diogo, 42 anos, há dois meses lutando contra um câncer no Pâncreas, chegou me abraçando, já tirando uma selfie e disse:

– Obrigado! Com certeza, a quimio de hoje ficará na história…

E riu como uma criança.

Thiago Carmona é publicitário, pós-graduado em gestão administrativa e tem MBA em Gestão de Pessoas. Também é palestrante e humorista.
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