Crônica: Lembranças

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Lembranças. Foto: Pixabay.
Lembranças. Foto: Pixabay.

É impressionante o que esse software, que todos temos na nossa cabeça, e que
habituamos chamar de lembranças, faz com a nossa forma de ver a vida. Sempre que conheço um Tadeu, por exemplo, antes de qualquer coisa, lembro do moleque forte e folgado da escola que não perdia a chance de humilhar e maltratar os mais fracotes como eu.

Foi o Tadeu que me ensinou, na prática, a importância da leitura. Afinal, como ganhar músculos não era uma coisa possível para mim naquela época, descobri que, lendo, eu poderia aprender as coisas com mais facilidade e, com isso, comecei a ajudar meninos que eram fortes, mas não maldosos, nas matérias que tinham dificuldades. Com essa atitude, eu ganhava a proteção desses meninos e me livrava do Tadeu. Sim, minha escola parecia uma versão mirim da Máfia Italiana.

Você tinha de pertencer a alguma família para ter chance de sobreviver. Agora, imagine
pensar isso tudo que eu falei antes de conseguir dizer: “Prazer, meu nome é Thiago!”
para a pessoa que está na minha frente e que não sabe nada da minha história com o
nome que ela possui?

Outra memória forte que tenho, e que me incomoda muito, acontece sempre que
encontro com uma mulher grávida. Imediatamente, quando olho para a gestante, sou
transportado para 1996. Subindo a rua da minha casa pela manhã, vejo a esposa de
um grande amigo, grávida de sete meses, vindo na minha direção. Ao aproximar, eu a
cumprimento e pergunto:

– Oi, tudo bem? Como você está? E o neném?
Ela, com os olhos lacrimejando, diz:
– Eu perdi meu filho, Thiago.

Apesar de ter sido constrangedor, confesso que, hoje, eu entendo que não havia
nenhum erro da minha parte até àquele momento. Afinal, eu não sabia que ela tinha
perdido. A grande questão, que me deixa embaraçado até hoje ao ver uma grávida,
vem do que fiz logo depois de escutar sobre sua perda. Eu fiquei tão sem lugar, mas
tão sem lugar, que olhei para ela e disse:

– Nossa! Então tá, tchau!

E saí andando rápido, deixando-a parada, sozinha, com os olhos cheios d’água. Durante muito tempo, eu fugia quando a via em algum lugar.

Memórias, lembranças… elas estão aí como um zumbido irritante de um pernilongo
em uma noite quente. Elas nos norteiam, confundem-nos, dirigem-nos. Tudo ao
mesmo tempo agora!

Mas atualmente, existe uma lembrança que me faz sentir um misto de alegria com
uma tristeza cheia de paz. Moro em uma casa no fundo da residência do meu sogro.
Para chegar, passo por um longo corredor que leva até o fundo do terreno. Desde que
me casei, moro nessa casa e um dos presentes que ganhei nessa época foi uma
cachorrinha que, criativamente, batizamos de Princesa.

Nesses 18 anos, todos os dias que eu abria o portão de casa, minha cachorrinha descia igual uma louca, no melhor estilo cachorro doido, e pulava, latia, fazia xixi, demonstrando, com todas as forças, o quanto estava feliz porque eu tinha voltado. E não importava se tinha um mês que estava fora ou se só tivesse ido na padaria comprar pão. A festa sempre foi com a mesma intensidade e verdade.

Hoje, com 18 anos, minha Princesa, anda com muita dificuldade, quase não escuta e enxerga muito pouco. Todas as vezes que abro o portão, ela não vem mais. Olho para aquele corredor e começo a lembrar dos seus pulos e, como diria Roberto Carlos, do seu sorriso latindo. E assim, subo, não importa como estava antes, subo esse corredor sempre sorrindo. Com essa sensação entro em casa, chego perto da Princesa, que geralmente está dormindo, e acordo-a com cuidado. Ela me olha e apenas vira a barriga para mim, e ali, na sua caminha, transportamos toda a alegria que vivemos, pulando naquele corredor em todos esses anos, para aquele cantinho da casa enquanto faço chamegos em seu corpo e ela retribui balançando seu rabinho com dificuldade.

Essas são as lembranças, um software que se retroalimenta constantemente sempre
fazendo a mesma pergunta a todos nós: o que você vai fazer comigo?

Thiago Carmona é publicitário, pós-graduado em gestão administrativa e tem MBA em Gestão de Pessoas. Também é palestrante e humorista.
www.thiagocarmona.com.br