Crônica: Formigas Trabalhando

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Foto: Pixabay

Deitado de bruços, no chão da sala, com as duas mãozinhas apoiando o queixo e com as perninhas balançando, como se estivesse fazendo esteira de cabeça para baixo, Enzo, filho de João Pedro, contempla três formigas que carregam um pedaço irreconhecível de alguma coisa que eles, um dia, comeram naquela sala. Pelo estado daquele pedaço, do que eu não sei o que é, acredito que deve ter residido durante uns três dias debaixo do sofá.

O pai sai rápido do quarto, vestindo uma camisa nova de sair e um short velho de ficar em casa. Um visual que, apesar de estranho, tornou-se comum, desde que seu pai começou a ficar mais em casa por causa daquele negócio que Enzo insiste em chamar de “Homem Office”. Mal deu dois passos na sala, o filho, com um atrevimento que não lhe é usual, levantou sua pequenina mão e disse energeticamente:

– Pare, formigas trabalhando!

Com uma cara de espanto, mas já encantado pela imaginação do filho, João Pedro diz:

– Como é que é?

– Isso mesmo, papai. Você está no “homem office” e elas estão na formiga office. O senhor não me pede para não atrapalhar quando estiver em reunião ou escrevendo? Então, elas já estão quase chegando no local onde guardam essas coisas que elas carregam. Olha, papai, eu gosto muito de formiga, mas acho que elas deveriam chamar porcomiga. Elas são muito porcas, comem de tudo. Ontem eu vi elas carregando um pedaço daquela barata que o senhor matou e não pegou no banheiro.

No exato momento que Enzo diz sobre a barata que o pai matou e não pegou, sua mãe, Sara, passa na sala e escuta.

Acho impressionante como sempre que algo é dito que outra pessoa não pode ouvir, é justamente essa pessoa que passa e escuta.

No exato momento em que Sara iria começar a falar sobre a idiotice que é matar uma barata e deixá-la no chão, João Pedro levanta sua mão, não tão pequena, e diz:

– Pare, formigas trabalhando.

– Como é que é? Diz Sara.

– É isso mesmo mamãe, olha aqui, o papai está certo. Essas três formigas estão há um tempão tentando levar esse negócio para a casinha delas. Só mais um pouquinho e pronto. Elas chegaram. Tomara que elas não tenham que fazer mais nada agora e possam brincar um pouco com seus filhos formiguinhas. Mamãe, não brigue com o papai pela barata, ele vai aprender. Isso vai deixar a senhora nervosa, ele nervoso e vai acabar atrapalhando o trabalho de vocês. E vendo as formiguinhas, o que eu mais quero é que ninguém atrapalhe vocês, quem sabe assim vocês arrumam um tempo para brincar comigo.

Thiago Carmona é publicitário, pós-graduado em gestão administrativa e tem MBA em Gestão de Pessoas. Também é palestrante e humorista.
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