Crônica: Braço Torto

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Cama elástica. Foto: Pixabay.

Brinquedos de parque me assustam, principalmente aqueles que caem, que rodam, que balançam. Ou seja, a maioria. Tenho trauma de roda gigante e não me aventuro em montanha-russa. Já em clubes, quando vejo alguém descendo em toboágua, meu coração treme de medo. Minha criança interior não é aventureira desde uma vez em que pulei de cinco metros numa cachoeira da Serra do Cipó. Naquele dia, eu estava confiante nas minhas habilidades como nadador, mas bati a bunda na água e fiquei duas semanas andando como o androide C-3PO, de Star Wars. A palavra que me move desde então é cautela.

Recentemente, minha sobrinha quebrou o braço após cair de uma cama elástica, brinquedo que ela sempre gostou desde os primeiros passos. Ela se esbalda no pula-pula, assim como as minhas outras duas sobrinhas, companheiras de diversão em qualquer festa que o objeto for destinado às crianças. Acredito que a menor delas aprendeu a falar pula-pula antes mesmo de balbuciar mamãe. Os olhos das meninas brilham quando a garagem é enfeitada com o brinquedo. Alegria para elas, descanso para os pais, mas para mim, vigilância.

Não gosto de pula-pula, mesmo quando a memória traz lembranças muito marcantes de uma visita da Tia Dulce a Bom Despacho. A apresentadora infantil dos anos 1980 recebia a meninada na cama elástica, dava uns três pulos com cada uma como sinal de afeto e fazia a fila andar. E que fila quilométrica… Para conseguir esse carinho era preciso esperar horas comendo algodão doce e pipoca, segurando a ansiedade, o xixi, o cansaço dos pais, o calor na moleira. Contudo, estar de mãos dadas com o ídolo da televisão era a materialização dos sonhos mais puros.

Acho a cama elástica um perigo constante. A meninada subindo e descendo, cada uma querendo ocupar o maior espaço, empurrões daqui, pernas em chutes acolá, trombadas nas quedas. Os menores admirando os pulos altos dos mais crescidos. Os monitores de olho nas mensagens de celulares, os pais bebendo e comendo nos fundos da festa, e as crianças nem um pouco preocupadas com a existência de boletos. Conferir a resistência das molas? A validade das cordas? O material da cerca de proteção? Ninguém repara nisso… Sinto que deixar o filho gastando a energia num cercadinho é um alívio para os adultos que também querem um momento de lazer, e de paz. No entanto, acidentes não foram previstos, não é mesmo? Só que eles acontecem o tempo todo.

Isso não é chatice de um tio que parece ser ranzinza porque não gosta de brinquedos que beiram o limite da aventura. É preocupação mesmo. É prudência observar mais o que as crianças fazem enquanto estão crescendo. Elas são curiosas, travessas e anseiam por experiências. Só aprenderão que tomada dá choque quando forem alertadas do perigo. Vão dar valor à respiração, depois de “tomar um caldo” no mar. Lerão livros se tiverem estímulo. Serão prósperas se souberem o valor do dinheiro. Comerão comidas diferentes se um dia a batata frita não for o prato principal. Comigo foi assim: só aprendi que osso quebra quando tomei um tombo caindo de uma rede instalada a 20 centímetros do chão. Gesso por um mês, fisioterapia por dois, e anos de histórias para contar.

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal.
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
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