Crônica – A voz

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Mãos. Foto: Pixabay.

Quando se está baleado, no meio de um tiroteio, perdendo sangue e com a morte olhando-o da esquina com um sorrisinho no canto dos lábios, dizem que toda sua vida passa na frente dos seus olhos. Isso não aconteceu comigo. Eu sentia toda a dor daquela bala de fuzil que atravessou meu joelho. E a única coisa que queria era não sentir mais. Eu não queria ver toda a minha vida, não queria ver meus pais, minha mãe, minha esposa, nada.

Queria parar de sentir aquela dor. Os tiros, incessantes, eram mais um estímulo para dar um fim àquilo. Bastava me arrastar alguns metros para a esquerda que estaria no raio de visão dos meus inimigos. Ao fundo, meus parceiros policiais tentavam me proteger. Mas eu não queria proteção, queria parar de sentir aquela dor. Decidido a não mais aguentar aquilo, comecei a arrastar meu corpo para o local onde deixaria de viver. Bastou dar o primeiro arrasto que escutei uma voz de mulher dizendo: “Soldado, não desista! Não se entregue!” Aquela voz ganhou minha atenção.

Não tinha nenhuma mulher naquela operação, será que eu já estava delirando? Mas por que não delirei com a voz da minha mãe? De onde vinha aquela voz que era forte, que conseguiu chamar minha atenção? Quanto mais procurava, mais forte a voz ficava e, mesmo assim, eu não conseguia localizar. De repente, comecei a ficar tonto, sabia que, se queria me entregar, deveria continuar me arrastando, mas a voz, parecia ler o que pensava, e continuava insistentemente dizendo: “Soldado, não desista! Não se entregue!” Aquela voz me paralisou atrás daquele carro que me protegia dos tiros. Meus olhos se ofuscaram, percebi que iria desmaiar.

Antes de perder a consciência, ainda pude escutar mais uma vez: “Soldado, não desista! Não se entregue!” Depois de 15 dias, acordei em um hospital, entubado. Aos poucos fui entendo a realidade. O tiroteio era um sonho. Estávamos realmente indo para uma operação, mas a viatura em que estava perdeu o controle e caímos de um viaduto. Minhas pernas tinham sido decepadas na hora. Lembro que meus últimos pensamentos foram: “Eu não quero viver assim”. De repente, uma técnica de enfermagem chegou perto de mim e disse: “Muito bem, soldado, você não se entregou!” Era ela, a voz do tiroteio que insistentemente me motivava a não desistir. Logo que pude falar, eu a agradeci e chorei.

Ela não entendeu muita coisa, afinal não é fácil falar no estado que estava. Logo depois que saí do coma, fui transferido para outro hospital. Foram anos de recuperação e adaptação à prótese. Hoje, quatro anos depois, estou indo com a minha esposa no hospital que fui atendido. Irei procurar aquela voz que me ajudou a não desistir, para que ela seja a primeira a saber que em breve serei pai.

Ps: Essa história foi baseada em fatos reais e a técnica de enfermagem é a minha mãe.

Thiago Carmona é publicitário, pós-graduado em gestão administrativa e tem MBA em Gestão de Pessoas. Também é palestrante e humorista.
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