Crônica: A morte que desejo

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Mão idosa. Foto: ThinkStock.

Eram mais ou menos 11 horas da noite e, como sempre acontecia desde que entrara no Ensino Médio, esse era o horário habitual em que eu chegava em casa.

Geralmente estava tão cansado que bastava abrir portão de casa que, inconscientemente, meu pé direito já apoiava o dedão no calcanhar do pé esquerdo. Depois desse apoio, era só o pé esquerdo dar um puxão e ficava livre daquele maldito sapato que me apertava durante mais de treze horas no dia. Como bom cristão, meu pé esquerdo também auxiliava o direito e o ajudava a se libertar das amarras da mesma maneira.

Gosto tanto de ficar descalço que só de tirá-los, já tenho a sensação de estar pelado.
Entretanto, naquela noite foi bem diferente. Dois tios já tinham chegado no dia anterior, mas eu sabia que quando voltasse, à noite, quase todos já estariam ali e muitos estariam com filhos. Eram 11 tios, no total. Pela primeira vez, ao abrir o portão antes de entrar, eu não estava relaxado. Estava com medo. Tinha pessoas ali que eu nunca tinha visto e outras que a última vez que conversei ainda era uma criança.

Como dormir na rua nunca foi uma opção, entrei. Logo depois de entrar, queria correr. Tios e tias vieram me abraçar, chorando. Era um choro silencioso, afinal, ela não podia escutar.

As pessoas me perguntavam como eu estava. Percebendo que eles estavam, apenas agora, descobrindo o que eu já sabia, fui em direção ao quarto. Deitada, com seus olhos multicoloridos, estava ela. Lembro-me que quando era criança, enchia sua paciência, pedindo para ficar olhando bem de perto seus olhos. De longe pareciam verdes, mas de perto, dava pra ver que era uma combinação de cores lindas que, dependendo do dia e da roupa, variavam de uma maneira marcante. Entrei no quarto. Ao lado dela, uma tia segurava sua mão. Depois de dizer alguma coisa que não prestei atenção, colocou a mão na cabeça de sua filha, fez uma oração, beijaram-se e minha tia saiu. Logo que me viu, ela disse:

– Senta aqui, meu filho.

Sentei. Ao meu lado estava uma das mulheres mais fortes que conheci. Aquela mulher, loira, tinha trocado um casamento com um homem rico da sua cidade para casar com o pobre e negro amansador de burro, José. Claro que ela só teve essa opção porque sua mãe, viúva, analfabeta, em 1920, deixou bem claro para todos que, na casa dela, quem decide com quem casa é a pessoa que vai casar.

Gostaria de ter conhecido essa outra mulher.

Essa era a mulher que escolheu casar com um homem negro e pobre, e criou, com mão de ferro e muita dignidade, todos os seus filhos. Dizem que, certa vez, dançando em uma festa, ela achou que em uma dança José estava alegrinho demais com sua par. Ela também dançava muito, mas tudo tinha de ser com muito respeito. Nesse dia, ela achou que não estava. Dessa maneira, sem pestanejar, levantou-se, chegou perto do seu José e jogou um dos filhos do casal no braço dele:

– Tome que o filho é seu, e agora é a minha vez de dançar.

Meu avô sorriu, pegou o menino e, consciente de que ela estava certa e que, para o bem da sua própria integridade física, era melhor ficar quietinho, sentou! Viu? Essa era a mulher que por muito tempo vi tomar morfina todos os dias, e mesmo assim as dores não passavam completamente. Essa era a mulher que, enquanto minha mãe trabalhava em dois hospitais, dando plantão e dormindo em ônibus, cuidou de mim.

Logo que sentei do seu lado, ela pegou na minha mão, disse algumas poucas palavras que nunca vou esquecer, colocou a mão na minha cabeça e me deu um beijo. Eu levantei e outro neto veio. Enquanto saía, ela repetia o mesmo ritual com todos. Cada um recebeu uma palavra diferente, cada um recebeu um beijo. Naquela madrugada, minha avó morreu. E morreu como sempre viveu, sendo forte, cuidando e ensinando que mesmo a morte pode ser linda.

Thiago Carmona é publicitário, pós-graduado em gestão administrativa e tem MBA em Gestão de Pessoas. Também é palestrante e humorista.
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