Crianças pequenas sabem relatar casos de abuso sexual?

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Foto: Pixabay

Um dos colégios particulares mais tradicionais de Belo Horizonte, o Magnum, está no centro de uma grande polêmica. Nos últimos dias, dois alunos, ambos com três anos de idade, supostamente, sofreram abuso sexual nas dependências de uma das unidades da escola, localizada no bairro Cidade Nova, região nordeste da capital mineira.

De acordo com os pais, os relatos das crianças apontam como culpado um funcionário do Magnum, que é estagiário e trabalha como auxiliar de professores nas aulas de educação física, e que teria tocado nesses alunos.

Em entrevista ao jornal O Tempo, na segunda-feira (7 de outubro), o acusado, Hudson Nunes, de 22 anos, nega que tenha cometido os crimes e ressalta que o colégio possui circuito de segurança, inclusive com câmeras espalhadas pelas quadras poliesportivas, que registrariam qualquer tipo de abuso.

Após as denúncias, o Magnum fez uma reunião de emergência com professores, funcionários, gestores da escola e pais de alunos.
Depois do encontro, o colégio divulgou medidas preventivas contra esse tipo de problema.

Essa polêmica na qual o Magnum está envolvido levanta diversos questionamentos. Entre eles, formulamos três perguntas que focam no comportamento de crianças pequenas e o que os pais podem fazer para prevenir ou identificar situações de abuso sexual. Quem responde é o psicólogo Gilberto Diniz. Confira abaixo:

1) Uma criança de apenas três anos é capaz de entender e relatar aos pais ou outras pessoas próximas que algo desse tipo, realmente, ocorreu?

A criança nessa idade não é capaz de entender o conteúdo sexual como nós adultos entendemos, porque não possui imaturidade neste sentido. A sexualidade infantil existe de forma primária e inocente.

Entretanto, não podemos esquecer que os pais são os maiores exemplos para a criança. A forma com a qual tratam o filho e se relacionam como casal, o respeito e o conteúdo afetivo envolvidos nessa relação acabam se tornando os primeiros norteadores da sexualidade infantil. Partindo desse princípio, da relação de confiança entre pais e filhos, e das devidas orientações que os filhos devem receber dos pais, a criança pode não entender, mas irá relatar tudo o que ocorre de diferente em seu convívio.

Por isso é sempre importante manter um diálogo no intuito de fortalecer a cumplicidade e proteger a criança de eventuais acontecimentos.

2) Como os pais devem agir nesses casos, uma vez que as crianças, sobretudo nessa idade, podem contar histórias fantasiosas?

Os pais precisam estar atentos ao comportamento dos filhos. Qualquer manifestação diferente precisa ser verificada. Quanto mais próxima a relação, maior a facilidade de notar as alterações.

As crianças realmente criam fantasias, assim como nós adultos, mas o conteúdo dessas histórias fictícias dificilmente terá cunho sexual. Uma criança pode achar um adulto legal e bonito e criar uma história de príncipe e princesa, assim como nos desenhos, mas dificilmente tirará as roupas dos personagens em sua imaginação. A compreensão da fase em que seu filho está, o diálogo com a criança e o acompanhamento junto às instituições de ensino são ferramentas eficazes na prevenção destes tipos de abuso.

3) Quais são os sinais que a criança pode apresentar em situações de abuso, e em quê os pais devem prestar atenção?

O diálogo é sempre a melhor opção. Se a relação entre pais e filhos for saudável, a criança será educada a relatar sempre quando ocorrer algo estranho e sendo assim, ela sentirá confiança e liberdade para contar os fatos.

Já quando a relação de diálogo não é estabelecida ou a os filhos pequenos possuem dificuldade para verbalizar, existe uma tendência de manifestarem as suas frustrações de outras formas, pois não entendem a situação, mas se sentem violados, o que gera angústia. Essas manifestações podem aparecer de diversas formas, como, por exemplo, distúrbios de comportamento, de sono, de alimentação, muito silêncio ou muito choro