Confissões Musicais

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Sábado, manhã de frio, liguei o rádio da sala. Há muito tempo, o aparelho estava solitário, sem energia elétrica. Culpa dos compromissos do fim de semana, mas na folga, ele faz companhia. Confesso que é um hábito incomum diante de tantos recursos propiciados pelos aplicativos do smartphone. Na Era Spotify, ainda gosto da sensação de me surpreender com a escolha do locutor. Cresci ouvindo rádio, sonhando com a imagem de quem falava do outro lado, apaixonado com vozes. E sigo assim, prestando atenção e tentando adivinhar sotaques, entonações, timbres dos contadores de histórias da televisão e, claro, do rádio. 

Durante a faxina, mexi nas fitas cassetes que guardo da adolescência. Quantas lembranças da época em que comprava música do Silvano, que tinha uma loja na Av. das Palmeiras, em Bom Despacho, minha terra natal. Foi lá que investi uma mesada no meu primeiro vinil: Rock in Rio II Internacional – capa azul e vermelha. Papai Noel me presenteou com muitos cassetes, com seleções que iam do sertanejo, passando pela lambada, do pop rock brasileiro aos populares que frequentavam o Chacrinha, o programa da Xuxa e o Clube do Bolinha. Chitãozinho & Xororó, Beto Barbosa, Sidney Magal, Gretchen, José Augusto, Kátia, Paralamas do Sucesso, Banda Yahoo, Michael Sullivan e Paulo Massadas. E tinha os gostos infantis também: Balão Mágico, Trem da Alegria, Luan & Vanessa. 

Minha mãe me ensinou a ouvir Jovem Guarda. Meu pai, os hits dos anos 1960 e 1970. Minhas primas, fãs dos grupos, me aplicaram os Menudos, Dominó, Polegar. 

O programa Globo de Ouro mostrava quem “bombava” nas paradas das rádios: Titãs, RPM, Tim Maia.  As novelas me apresentaram Rosana, Joanna, Jane Duboc, Deborah Blando, Sandra de Sá. Os amigos, Kid Abelha, Sarajane, Luiz Caldas, Pet Shop Boys, Araketu, Cheiro de Amor, Legião Urbana, Raimundos, Oasis, Red Hot Chili Peppers. Que miscelânea meu gosto musical. 

Quando chegaram os CDs, comprei o que podia e o que não podia. Felicidade para meu tio Júnior, dono da loja Império do Disco, e do Gustavo e da Maria do Carmo, da Acústica. Além de gravar 

as que mais gostava em cassetes, ampliei a coleção de discos dos artistas preferidos. Meu primeiro CD completa 25 anos em 2019 – de história e na minha prateleira. É o acústico Meio Desligado, do Kid Abelha. Tenho todos os que foram lançados pela banda e pela Paula Toller. Infelizmente não possuo os produzidos pelo George Israel, minha frustração de fã. Na estante, as obras completas de Shakira, Spice Girls, The Cranberries,

Legião Urbana, Marisa Monte, Vanessa da Mata, Dido, Jorge & Mateus, Luan Santana, partes de um acervo de quase mil discos, com um certo exagero. 

Enquanto escuto as chamadas do rádio, limpando os CDs, relembro situações que me marcaram e que ainda me deixam triste. Fui roubado algumas vezes. Levaram-me dois discos da Marisa Monte: Infinito Particular e Universo ao meu Redor – que já procurei nas lojas e não encontro com capa de acrílico; no mesmo dia, o CD Elas Cantam Roberto, que era um presente para minha mãe; e um disco marcante da minha história amorosa platônica dos anos 1990 – Whigfield. Tento perdoar os bandidos, mas ainda é muito caso para resolver na terapia. Ainda bem que foi possível resgatar as músicas em downloads na internet, um presente especial que ganhei recentemente. 

Quando me perguntam qual meu estilo musical predileto só sei responder uma palavra: aleatório. Amo essa função desde quando ganhei um som moderno com gaveta para três CDs. Aplico-a quando uso pendrive, na escolha da rádio, no Spotify, no YouTube. Curto gospel, brega, pop, rock, clássicas, indie, românticas, eletros. Gosto de música. Ultimamente, tenho ouvido francesas, cubanas, espanholas, instrumentais meditativas. 

No rádio toca das mais antigas às chicletes da atualidade. Nostalgia na voz dos locutores que anunciam as mais pedidas do passado, mas também a repetição exagerada das que estão na boca do povo. No pendrive, uma seleção de clássicos. Na busca do Spotify e do Itunes, as do momento. A música da minha época é aquela que embala e fala do momento. Pode ser dos anos 1980 ou dos 2019. Assim, confesso. Porém, como canta Adriana Calcanhoto: Devolva-me (os CDs que foram levados de mim). 

Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Escritor, Terapeuta Transpessoal.

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