A Viagem

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Idoso. Foto: Pixabay.

Um a um, aquelas mãos calejadas de trabalho colocam em uma sacola dois pacotes de biscoito, três maços de San Marino do Paraguai, alguns rolos de papel higiênico e um bolo de fubá, o que o filho mais gostava de comer na infância. Sobe no ônibus com dificuldade, seu reumatismo piorara bastante. Afinal, precisava economizar dinheiro para as viagens que teria de fazer durante sabe-se lá quanto tempo. A única maneira era revezando os remédios que poderia comprar no mês.

Na viagem, quase não come. Se em casa já não tinha vontade, não seria dentro de um ônibus clandestino, sem ar condicionado, que seu apetite voltaria. Depois de nove horas mal dormidas, ele desce na rodoviária e se dirige para o ponto do último ônibus. Seriam apenas duas horas em um transporte público legalizado, mais desconfortável que o clandestino, entretanto ele só chega três horas depois. Afinal, ninguém contava com o acidente fechando a BR.

Na fila, trinta pessoas aguardam sentadas em um meio-fio. Gente de todos os cantos, em sua maior parte senhoras idosas. Cumprimenta com timidez algumas pessoas e senta no meio-fio. Quatro horas e meia depois, chega sua vez. Uma pequena greta é aberta no portão e ele entra. Ao fundo, um guarda com uma arma em punho; na sua frente, duas policiais sentadas em uma bancada ao lado de uma enorme e entupida lata de lixo.

Ele chega, coloca sua sacola em cima da bancada e começa a retirar os itens um a um. A agente pergunta: “É tudo para ele?” Uma resposta seca é dada: “Sim”. “Então, deixa eu virar aqui para ser mais rápido.” E vira a sacola. Para quem está de fora parece grosseria, mas considerando que ainda há mais de 15 pessoas idosas e pobres esperando do lado de fora, todos compreendem.Os maços de cigarros são abertos e rasgados, os rolinhos dos papéis higiênicos retirados, o bolo é aberto e verificado, os biscoitos são jogados dentro de um saco plástico.

O pai se pergunta: “Será que esse saquinho está limpo?”. Sem ter tempo de responder sua própria pergunta, chamam-no para a vistoria. Exatamente dezenove horas e quarenta e cinco minutos depois de sair de casa, seu José abraça seu filho Jonas, condenado a 10 anos de cadeia por tráfico de drogas e assalto. São 60 minutos de perguntas, conselhos e despedidas e mais 16 horas de viagem de volta com a pergunta que o atormenta: o que eu fiz de errado?

PS: Este texto nasceu enquanto esperava para realizar, junto com o Tio Flávio Cultural, uma palestra em um presídio da Região Metropolitana de BH. Enquanto estava ali, fiquei olhando as pessoas que aguardavam sua vez de visitar os parentes. Como é de praxe, a maior parte das pessoas que aguardavam era mulheres, de meia idade para idosas. No meio delas, um senhor com sua sacola. Fiquei acompanhando-o com os olhos e nasceu esta história. Não permita que uma pessoa que o ama passe por isso. Use sua inteligência, disposição, força, agressividade para honrar as pessoas que o amam.

Thiago Carmona é publicitário, pós-graduado em gestão administrativa e tem MBA em Gestão de Pessoas. Também é palestrante e humorista.
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