Crônica: A pose que sustenta a quebrada

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Pose que sustenta a quebrada. Foto: Pixabay.

Qual a pose de quebrada mais o representa? Com certeza, a de ficar agachado, exercitando a perna, toca fundo no coração de quem já ficou muito assim. Eu já fiquei! Claro que com o passar dos anos, fui percebendo muitas outras poses que encontramos nas quebradas. Umas felizes, outras nem tanto.

A pose de estendido no chão sem vida é uma das mais tristes. Só quem já viu assim algum parente, amigo que cresceu junto, sabe como é. A pose da solidariedade é outra que impressiona. Já vi pessoas que, sem ter o que comer, ao ganhar uma cesta básica, repartilha igualmente com o vizinho do lado que também não tinha nada.

Outra pose que acontece muito, na mesma casa, com as mesmas dificuldades, dois filhos de um alcoólatra, que espancava a esposa, escolhem caminhos diferentes. Um, decidiu nunca beber e fazer de tudo para tirar a mãe daquele sofrimento, o outro, escolheu beber e aumentar o sofrimento da mãe. Os dois acham que são o que são em função do pai. Os dois estão igualmente certos e errados ao mesmo tempo. Chamo essa de pose do paradoxo da escolha.

Existe a pose do medo diário de viver em uma área que o estado abandonou e que bandidos tomaram conta. Você não pediu para ser abandonado pelo estado, não pediu para os bandidos tomarem conta, mas corre o risco constante de, sem pedir, tomar uma bala na cabeça vindo de qualquer direção.

A quebrada tem muitas poses. Tem a pose do policial que tem de sair com seu uniforme escondido para não ser morto. Tem a pose do bandido que não aguenta mais a agonia e a tristeza da vida do crime, mas, como diria o Poderoso Chefão, quanto mais ele tenta sair mais o puxam para dentro de novo, afinal, seu envolvimento é muito grande.

Mas tem duas poses impressionantes, que é a maioria em qualquer quebrada. A pose da integridade, que também gosto de chamar de a pose da marmita. Existe uma regra ao carregar marmita. Você não pode sacudi-la. Você carrega com carinho para que ela chegue íntegra e não um mexidão vazado.

As pessoas que fazem a pose da marmita são as que nem a fome conseguiu fazer com que elas perdessem seus valores de honestidade e integridade. Essas pessoas são o exemplo maior que não deixam a quebrada sucumbir no caos. E a pose, que, particularmente, para mim, é a mais forte, é a dos joelhos das mães, chorando e clamando aos céus pelo seu filho que está em alguma esquina, agachado com os amigos, exercitando as pernas em sua pose de quebrada.

Thiago Carmona é publicitário, pós-graduado em gestão administrativa e tem MBA em Gestão de Pessoas. Também é palestrante e humorista.
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